terça-feira, 22 de setembro de 2026

Fungagá da Bicharada

 

Bichos e Bichecos

Este era um Camaleão que não sabia mudar de cor. Ao ver que os outros camaleões conseguiam, ficava verde de inveja. Às vezes gozavam com ele, e ele ficava vermelho de raiva. Chegou mesmo a cair doente, e ficou amarelo. Delirava de febre, e julgou ver um fantasma, e teve tanto medo que ficou branco. O pobre camaleão via-se negro. Para o consolar, a mãe preparou-lhe um bolo enorme, e ele comeu tanto que se engasgou até ficar roxo.



Este era um Veado que perdeu um chifre numa luta. No lugar dele colocou um cabide, fixando-o com fita adesiva. Passado algum tempo, um lenhador encontrou o chifre na floresta. Levou-o para casa e usou-o como cabide. 



 Esta era uma Borboleta noturna que certa noite entrou pela janela de uma casa cujos donos tinham deixado entreaberta para entrar o fresco. A borboleta noturna começou a dar voltas em redor de uma lâmpada acesa que estava pendurada no teto, e deu voltas, e mais voltas, e deu tantas voltas em redor da lâmpada que a desenroscou. Quando os donos da casa acorreram alarmados pelo barulho da lâmpada a partir-se contra o chão, a borboleta noturna já tinha abandonado o local, muito assustada. A borboleta noturna encontrou outra casa com uma janela aberta. E começou a dar voltas em redor da lâmpada acesa que estava pendurada no teto. E deu voltas e mais voltas em redor da lâmpada. Mas desta vez em sentido contrário para não a desenroscar.

 


Este era um Cão que encontrou um osso. “Vou guardá-lo para outro dia”, pensou. E foi enterra-lo. Passado algum tempo, voltou ao lugar onde tinha enterrado o osso e viu que, precisamente naquele sítio, tinha nascido uma árvore que estava carregadinha de ossos. 



Este era um Cavalo que ia a caminhar pela praia, com as ondas a cobrir-lhe os cascos. De repente o cavalo parou, baixou a cabeça e olhou fixamente para a água. Lá dentro estava um cavalo-marinho. Ambos ficaram frente a frente. O cavalo pensou: “Na água do mar vemo-nos mais pequenos do que na água do rio.”

 



 

Este era um Hamster que dormia num canto da sua gaiola. Quando acordou, disse para com os seus botões:” Vou dar um passeio para esticar as patas”. Foi até à roda e começou a andar, e a roda girava e girava. Passado um bocado, o hamster disse para com os seus botões: “Já andei um pedaço. É hora de regressar ao meu canto”. Então deu meia volta e pôs-se a andar na roda, que agora girava em sentido contrário.

 

Esta era uma que uma bela manhã saiu do seu charco em busca de comida. Decidiu regressar ao charco passadas umas duas horas, mas não deu com ele. Tinha-se perdido e chorou desconsoladamente, e derramou lágrimas e mais lágrimas.

Derramou tantas lágrimas que estas formaram um charco, e a rã pôs-se a nadar nele, toda contente. Estava tão contente que chorou de felicidade, e derramou lágrimas e mais lágrimas que tornaram o charco maior, e a rã ficou ainda mais feliz.

 



Este era um rinoceronte que disse para com os seus botões:” Vou ali àquela montanha ver se encontro alguma coisa para comer”. O rinoceronte começou a andar e andou, andou, andou…E o caso é que nunca chegou à montanha, porque o rinoceronte era muito míope, tal como todos os rinocerontes, e não se apercebeu de que o que ele via não era uma montanha, mas sim o corno que os rinocerontes têm no cimo do focinho.



Baseado na ideia original da docente Paula Alexandra Almeida: "Bichos e Bichecos".


Textos do livro de Pinto & Chino "MINIMALÁRIO"  da Kalandraca

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